Há uma coisa, dentre muitas outras, que desperta a curiosidade daqueles que não enxergam com os olhos. Não sei se posso falar em nome de todos os que têm deficiência visual, mas posso falar por mim, e, de fato, há uma coisa que realmente me intriga: a dinâmica do olhar.
O olhar, para os que enxergam, parece ser algo que tem vida própria, e que transcende os limites do espaço ocupado por cada pessoa.
A linguagem do olhar parece ser tão importante que existe um vocabulário próprio para abordá-la. Comumente, fala-se sobre Olhares que se cruzam, que se atraem ou que se repelem. São também usados muitos adjetivos que caracterizam um olhar: há olhares que são magnéticos, evasivos, simpáticos, austeros, tristes ou atentos.
Outro dia uma amiga minha partilhou uma experiência que parece ser comum aos que enxergam, principalmente às mulheres. Ela disse que, de vez em quando, ao caminhar por algum lugar público, percebe, por intuição, que alguém está insistentemente olhando para ela. Ao se voltar para a direção deste suposto olhar, ela constata que, de fato, sua suposição era verdadeira. Assim, por uma fração de segundos, seu olhar se crusa com o olhar deste espectador anônimo. Este brevíssimo encontro causa a ambos um certo constrangimento, , pois não seria, pelo menos a princípio, intenção do espectador que ela o notasse.
Parece haver de fato um mundo de encontros e desencontros entre as pessoas que acontece silenciosamente, e que, mesmo sendo inaudível, é cheio de vida. Ao que parece, o olhar precede as palavras ou mesmo os gestos. Em uma festa ou em uma reunião entre muitas pessoas, as trocas de olhares são constantes e ininterruptas. Trata-se de um processo dinâmico, que talvez pudesse ser esquematicamente representado por uma infinidade de setas que vão e vêm, e que mudam de direção a todo momento.
Mas e os cegos? Onde entram nesta história?
Será que , quem não enxerga com os olhos, se encontra à margem do mundo dos olhares?
Talvez não, e o ponto que nos une a este mundo é o fato de que sua dinâmica é subjetiva. O olhar é , na verdade, uma representação daquilo que se passa, afetivamente, entre duas pessoas. É uma força que sai de uma pessoa e atinge a outra, ainda que as duas não se toquem. O olhar é, senão uma troca de energia entre os seres humanos.
Quando duas pessoas se entreolham elas se comunicam, e, de alguma forma, se modificam em função da informação que recebem. Esta comunicação silenciosa não é apenas visual, mas requer o uso de todos os recursos associados à sensibilidade.
As pessoas cegas, utilizando-se de todo o aparato sensorial que possuem, participam deste dinamismo, e assim, podem perfeitamente se encantarem com a força de um olhar, ou serem objeto deste encantamento.
Aprecio a letra de uma música que define o olhar de um modo muito apropriado:
“A luz que acende o olhar vem das estrelas no meu coração. Vem de uma força que me fez assim. Vem das palavras, lembranças e flores regadas em mim.”/font>
Que as chamas de nossos olhares se mantenham vivas e que suas luzes nunca se apaguem!
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